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Saturday, October 06, 2007

Breve Asserção Dialética na História da Arte


Estava eu passeando pela biblioteca de História da Arte do IFCH (Unicamp), quando me deparei com este trecho, do historiador da arte Arnold Hauser:

"A arte de um modo geral pode ser menos uma expressão de paz interior, força e autoconfiança, e de um relacionamento direto e não problemático com a vida, do que um grito espontâneo, amiúde selvagem e desesperado, e às vezes apenas articulado, a expressão irrereprimível do desejo de dominar a realidade ou o sentimento de estara desesperada e desamparadamente a sua mercê"

Ao entrar em contato com uma das pinturas de Jackson Pollock notamos uma relação clara com o que está escrito. O quadro parece mesmo um grito selvagem e não articulado, completamente à mercê da realidade (uma vez os traços de Pollock são aleatórios e caóticos).

No mesmo timeframe, Piet Mondrian fazia suas famosas composições com linhas retas e quadrados: formas puras, ideais, vindas diretamente do sublime matemático. Pode parecer absurdo, mas com algum tempo de observação, encontramos em Mondrian uma harmonia elevada, justamente aquilo que negam os quadros de Pollock e a citação de Hauser.







A citação, porém, trata do surgimento do Maneirismo, em oposição à arte do Renascimento mais clássico, ao longo do século XVI. Aí estão um retrato renascentista e um maneirista, para apreciação:

Andrea del Sarto - Retrato da esposa do artista Agnolo Bronzino - Retrato de Bia, filha ilegítima de Cosimo de Medici

















Seríamos capazes de apontar diferenças tão gritantes quanto as que vemos entre Pollock e Mondrian? Provavelmente Andrea del Sarto (pintor do quadro à esquerda) se espantaria com o traço de Agnolo Bronzino (pintor do quadro à direita), mas para nós, existe no retrato maneirista o grito selvagem de que fala Hauser?

Já não é coisa muito impressionante, hoje em dia, notar que textos que se referem a um certo momento histórico se aplicam perfeitamente a vários outros. Não é sem razão que alguns historiadores da arte atuais colocam que cada momento tem em si o seu clássico e o seu barroco, a sua harmonia e o seu caos, à sua maneira.