Saturday, October 11, 2008

O Valor Ontológico de uma Metáfora

Confesso que estou longe de compreender a série de ensaios que Régis Debray colecionou sob os emblemas Acreditar, Ver e Fazer. Me lembra imediatamente: Veni, Vidi, Vici, tríade que pressupõe uma sequência de ações, rumo ao seu ápice, a vitória. Me pergunto se Debray coloca a sua tríade também desta forma, imagino não uma sequência cronológica de ações, mas uma interdependência lógica, sequencial?, de atitudes, no que as atitudes diferem e principalmente no que incluem das ações.

Os textos me deixaram um certo nó no cérebro, porque trazem um pensamento tão plural, eixos de raciocínio cintilantes e nada estruturalistas. O grande prazer do midiólogo é traçar diagonais, diz Debray no prólogo, e isto gera um certo embaraço em quem se acostumou organizar o pensamento em ortogonais. O midiólogo se arrisca em terrenos onde a intelectualidade reluta um pouco em pisar. No artigo sobre Guy Debord: Dispomos de nosso orgulho para baixar o debate. Não pretendemos anucniar a um povo fascinado a verdade de uma época, mas sim trazer algumas luzes para realidades até agora consideradas triviais ou marginais. Os ‘gênios’ não procuram: acham. Nós, tarefeiros, não temos esse privilégio. Ele arroga-se a humildade.

Os artigos de Acreditar, Ver, Fazer costumam percorrer, por círculos tangentes ou diagonais, a relação de nossa sociedade com as imagens, em relação direta com sua mediação física. O escopo é grande, mas vejo algumas linhas a que ele costuma recorrer em vários textos: a dessacralização e secularização do ocidente, e a atual mudança de paradigma no suporte mediador, da terra para a água. Isto é uma metáfora, da mudança de suportes físicos (papel, celulóide, pedra) para suportes digitais, que não têm aspecto algum, e isto, no que resolve alguns problemas, cria uns novos. Aliás, um dos pontos do Acreditar é que se pode muito bem tratar das coisas com seriedade utilizando metáforas.

"Somente o imaginário tem potência de evocação e não de convocação, e as obras capitais que constituíram o patrimônio de uma nação, como da humanidade, não devem ser buscadas do lado dos conceitos, mas sim das formas. Os delírios da pedra, das cores ou das palavras têm a vantagem, sobre a ciência, de poder dar um sentido ao mundo - no que fracassam as construções discursivas; e os mitos permitem mortes mais suaves que os saberes."
(do capítulo 14: Malraux, um magnífico perdedor)

Isso por si só, porém, não é suficiente. O mais belo museu do mundo nunca substituirá um bom colégio. A imagem, a construção metafórica, a abstração, são próprios e definidores do ser humano, da própria civilização. A secularização trazia a promessa de uma espiritualidade laica, em que contemplação, representação, distância, trarizam em si propostas civilizatórias unificadoras. Quanto menos o homem contempla e representa, menos ele tem vida pública, mais ele se torna para dentro de si, sem alteridade, sem sociedade.

Para além destas questões, acredito que o eixo cintilante que guia o livro é a sensação de que o pensamento intelectual, ao lado do que evocam as imagens, não estão se transformando em atitudes. A propriedade indicial, não mais simbólica, da imagem televisiva parece ter embotado o trânsito entre o Ver e o Fazer. E parece que a origem deste embotamento está na decadência do Acreditar na metáfora, na construção simbólica, na representação civil e civilizadora. O primeiro artigo já chama atenção para os Anjos, que levam ao mundo material as intenções de Deus, que é todo espírito. As idéias precisam de um corpo para agir sobre os corpos.

Por isso o material é tão importante, por isso o paradigma do meio água, de onde ascende Afrodite e onde afoga-se Narciso, pode ser tão problemático. Debray enfatiza sempre, é do material que se ocupa o midiólogo, e ele sente falta do homem que pisa no chão e contempla estrada.


2 comments:

barra/.ponto said...

o quanto a wikipedia se parece a um museu? na superficie, o texto agregado de mil vozes, que não vem de lugar nenhum, mas cuja aura de consenso se impõe. por baixo, no entanto, a praça comum dos interessados no tópico, um canto onde fazer as perguntas mais absurdas e específicas e participar das discussões relativas...
se os museus fossem mais frequentados (e portanto melhor frequentados), e seus cafés fossem mais baratos, não consigo imaginar uma escola sendo melhor.

Permafrost said...

A diagonal é o canal.